Cientistas afirmam ter identificado o lugar exato de onde todos os humanos vieram

Há cerca de 200 mil anos, um enorme lago resplandecia sob o sol, cobrindo a extensão cristalina de um exuberante pântano. Ali, uma nova espécie – Homo sapiens – foi reunida. Estes humanos modernos vieram depois dos neandertais e, assim, a espécie humana finalmente começou seu reinado. No entanto, os cientistas acabaram de identificar o surpreendente lugar onde tudo teve início.

A geneticista Vanessa Hayes, do Instituto Garvan de Pesquisa Médica sediado em Sydney, conduziu um estudo o qual utilizou dados científicos específicos para determinar o local exato do início da humanidade. Logo, Hayes e sua equipe especializada recorreram ao DNA mitocondrial, cuja coleta das células resultou em 1.217 amostras. Já que este material genético passa das mães para seus filhos, os pesquisadores precisaram encontrar uma população com uma linha materna muito antiga.

Ao coletar e analisar as informações certas de DNA, a equipe de pesquisa destacou uma área geral de origem. Após isso, vieram outras pesquisas arqueológicas e geológicas que, por sua vez, auxiliaram Hayes e os especialistas de sua equipe a encontrar algo espetacular: evidências de um gigantesco e antigo lago que se transformou em um pântano. Dizem que a exuberante vegetação foi cenário para os passos iniciais dos primeiros humanos da Terra. Aliás, a localização atual desse âmbito pode surpreendê-lo.

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Os especialistas sempre acreditaram que a humanidade se originou no continente africano. Mapear evoluções e migrações tem sido uma tarefa difícil. De todo modo, eles afirmam que há aproximadamente sete milhões de anos os seres humanos começaram a evoluir, separando-se de primatas como o chimpanzé-comum e o bonobo.

Logo, já que os cientistas não possuem registros fósseis suficientes, é praticamente impossível encontrar todos os vínculos entre humanos e primatas. Na verdade, espécies inteiras podem ter surgido e desaparecido sem deixar rastros. Por isso que, em alguns casos, existem apenas pedaços de evidências para se trabalhar.

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O retrato da origem da humanidade torna-se mais claro à medida que os cientistas se aproximam dos dias atuais. Eles sabem, por exemplo, que os neandertais percorreram pela Europa, Ásia Central e até mesmo Sibéria. Contudo, apesar dessa população ter aberto o caminho para os humanos modernos, eles não originaram a espécie Homo sapiens.

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Em contrapartida, foi a evolução do Homo heidelbergensis e Homo erectus que deu lugar ao Homo sapiens. Esses novos humanos apresentavam uma variedade de pequenas diferenças as quais os separavam da população neandertal. Tanto que o Homo sapiens assumiu um corpo mais esguio do que os robustos Homo neanderthalensis.

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Além disso, diferente dos neandertais, os humanos modernos dominaram a arte de fazer ferramentas. O grupo estilizou suas armas para ter lâminas polidas e alongadas, por exemplo. Eles também criaram lanças de arremesso mais sofisticadas, tornando a caça mais eficaz. Os neandertais, ao contrário, empunhavam armas mais pesadas, as quais eram esculpidas a partir de grandes pedras.

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Porém, o fato das populações de Homo sapiens e Homo neanderthalensis terem estilos de vida similares, confundiu inicialmente os especialistas da hodiernidade. Como resultado, então, os cientistas formularam duas teorias principais sobre como e onde a humanidade se desenvolveu. Alguns acreditavam no que é chamado de evolução multirregional. Esta hipótese afirma que os ancestrais humanos se espalharam pelo mundo, possibilitando com que os humanos modernos evoluíssem em diversos e distintos locais do planeta.

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Outros presumiam ser verdadeira a teoria denominada de hipótese da origem única. Como o nome sugere, esta ideia afirma que os humanos modernos cresceram e evoluíram no continente africano por milênios antes de migrarem para outras áreas da Terra. Durante os anos 80, aliás, os cientistas pareciam ter reunido uma clara confirmação da hipótese da origem única.

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Isto ocorreu devido aos testes de DNA, os quais revolucionaram completamente a ciência de inúmeras formas. No propósito de determinar o início da humanidade, os cientistas poderiam utilizar esse recurso e analisar as informações genéticas das populações modernas. A partir daí, as linhagens de vários indivíduos foram traçadas até uma época muito distante e esses mapeamentos pareciam sempre levar os pesquisadores a um único lugar de origem: a África.

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Nestes estudos iniciais, os especialistas recorreram ao DNA mitocondrial para traçar as linhagens ancestrais dos sujeitos. Esta parte do código genético provém das mães das pessoas. Também, esse segmento do DNA apresenta mutações mais rapidamente identificadas do que outros. Portanto, facilita saber como as mutações passaram das mães para os filhos por gerações.

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Ao traçar repetidamente esse DNA mitocondrial de volta ao berço da civilização, os especialistas notaram que o código genético de uma mulher foi levado até todos os seres humanos da Terra atualmente. Ela é conhecida pelos cientistas como “Eva” – embora não seja a mesma da figura bíblica.

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Esta Eva viveu quando toda a população humana era composta por somente 10 mil pessoas. Portanto, Eva não era a única – nem a mais velha – de nossos antigos antecessores. Ela apenas teve uma linhagem ininterrupta de filhas as quais foram passando seu DNA mitocondrial adiante até os dias de hoje.

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De acordo com a revista Smithsonian, Eva é considerada como o “mais recente ancestral comum da humanidade”. Inclusive, uma análise de DNA de 2008 também confirmou essa questão dela ser a única mulher daquele período a ter uma linhagem ininterrupta de filhas. Por meio desse estudo, os cientistas também concluíram que Eva se originou na África – mais especificamente, na área oriental do continente.

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Portanto, o DNA de Eva parecia revelar o início da história da humanidade. Ainda assim, os especialistas possuíam muitas outras indagações. Se a espécie era originária da África, como se espalhou para outros continentes? E por que foram encontrados tantos fósseis na Europa? A fim de responder a essas perguntas, os pesquisadores combinaram as mesmas evidências de DNA com descobertas arqueológicas.

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As informações apontavam para as grandes migrações que iniciaram entre 60 mil e 80 mil anos atrás. Naquele tempo, os humanos modernos aparentemente deixaram suas origens africanas pela Ásia. Já há cerca de 45 mil anos, eles haviam se movido para a Austrália, Indonésia e Papua Nova Guiné. 5 mil anos após isso, os grupos migraram da África para a Europa.

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Os humanos que viajaram da África para a Europa devem ter tomado um de dois caminhos para chegar ao norte. Alguns passaram pela costa mediterrânea para chegar ao continente, enquanto outros percorreram pela Turquia e ao longo do rio Danúbio. Esta movimentação deles fez com que os neandertais também migrassem, indo para algumas áreas montanhosas – até que a espécie desapareceu por completo há aproximadamente 25 mil anos.

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A etapa final na jornada da humanidade os levaria para as Américas. Isso aconteceu há cerca de 15 mil anos e, na verdade, teve início na Ásia. De lá, o Homo sapiens viajou pelo Pacífico para chegar à América do Norte. Uma vez em terra firme, alguns membros da espécie continuaram a perambular até se estabelecerem também na América do Sul.

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É difícil acreditar que essas informações venham somente das poucas evidências fósseis dos primeiros humanos a iniciarem tudo. Considerando as transformações que ocorreram no continente africano, onde afirmam que a humanidade teve sua origem, isso é especialmente surpreendente. Hoje a seca paisagem facilmente se deteriora e revela os ossos daqueles que viveram ali há séculos.

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Todavia, os arqueólogos tiveram pouca sorte em descobrir os restos dos primeiros Homo sapiens – tanto na África quanto na Europa. Assim, os especialistas acreditam que os primeiros humanos talvez não tenham enterrado os corpos dos mortos, como os Neandertais faziam, optando por cremá-los ou deixá-los para se decompor ao ar livre.

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Apesar da falta de esqueletos, a ciência e a tecnologia moderna permitiram aos pesquisadores identificar as origens humanas. Uma investigação de 2019, dirigida pela geneticista Vanessa Hayes, do Instituto Garvan de Pesquisa Médica em Sydney, recorreu mais uma vez ao DNA mitocondrial para obter respostas.

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Como foi mencionado anteriormente, Hayes e sua equipe coletaram 1.217 amostras de DNA mitocondrial de pessoas as quais atualmente vivem no sul da África. Alguns dos indivíduos do estudo são até mesmo dos povos coissãs – um grupo étnico que utiliza de consoantes cliques e busca por seus próprios alimentos.

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A partir dessas amostras, Hayes e a equipe traçaram o que é conhecido como a linhagem L0 no DNA mitocondrial dos sujeitos. A linhagem L0 remonta a Eva – o ancestral comum da humanidade. Ao longo do tempo, o DNA original de Eva se dividiu em cinco ramos principais à medida as pessoas deixavam a África e se diversificavam.

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A linhagem L0 também tem suas próprias variações. Por exemplo, há cerca de 130 mil anos, ela ramificou-se quando parte da população humana mudou de suas casas originais conforme as fortes chuvas transformavam terras secas em vegetação, servindo de sustento à vida humana. Enquanto alguns seguiram essa vegetação até ao sudoeste, outros se mudaram para o nordeste e se tornaram agricultores e coletores de alimentos.

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Mas o DNA mitocondrial L0 começou em algum lugar e Hayes e sua equipe foram capazes de identificar exatamente onde. Eles descobriram que a L0 e todos os seus sub-ramos colocaram os primeiros humanos, de fato, na África. O território, assim, estendia-se de Namíbia para Botsuana e também para o Zimbábue.

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Logo, Hayes e a equipe de pesquisa acrescentaram evidências geológicas, fósseis e arqueológicas as suas descobertas. Apesar de algumas dessas áreas parecerem inabitáveis agora, as informações coletadas sobre este potencial ponto da origem humana evidenciaram que o local costumava ser muito diferente.

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O enorme lago Makgadikgadi – aproximadamente do tamanho da Nova Zelândia – já cobriu uma enorme parte do atual Botsuana. Cerca de 200 mil anos atrás, contudo, o lago passou a se transformar em pântano. Segundo  Hayes e sua equipe, esta extensão pantanosa foi o berço dos humanos modernos.

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Ao observar a região hoje, no entanto, é difícil acreditar que as origens da vida humana na Terra possam ter se desenvolvido a partir dessa área árida. O antigo pântano fica ao sul do rio Zambeze e não é nada parecido com o que era em seu passado – coberto de água. Ao invés disso, transformou-se em grandes salinas com áreas brancas do mineral brilhando ao sol.

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De acordo com Hayes, há 200 mil anos a área parecia muito diferente. Tanto que no lugar das salinas havia um pântano repleto de recursos. Em 2019, Hayes conta ao The Guardian: “Deve ter sido um local exuberante o qual proporcionou um habitat adequado para os humanos modernos e a vida selvagem viverem”.

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Na época, o pântano de Botsuana teria servido como um oásis para a região árida ao redor. Portanto, a humanidade pode ter começado há 200 mil anos e permanecido no local por mais 70 mil anos. Acredita-se, aliás, que o pântano somente foi deixado pelos seres humanos devido a uma mudança no clima, a qual forçou com que migrassem dali.

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À medida que a órbita e a inclinação da Terra mudavam, isso de fato trazia fortes chuvas para novos âmbitos. Desse modo, a precipitação estimulou o crescimento das plantas, as quais surgiram em longas e deslumbrantes passagens. Estes caminhos cheios de vegetação deram aos humanos uma razão para deixarem suas casas no pântano e seguirem para novos territórios. Assim, este período foi o precursor da grande migração global, cujo início se deu há cerca de 60 mil a 80 mil anos.

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Então, Hayes e sua equipe reiteram a origem da humanidade e identificam o local do início de tudo como um pântano no Botsuana. Hayes relata: “Sabemos há muito tempo que os humanos modernos se originaram na África por volta de 200 mil anos atrás, mas o que não sabíamos, até este estudo, era exatamente onde”.

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Todavia, nem todos os especialistas se convenceram com a pesquisa de Hayes. Chris Stringer, um especialista em origens humanas do Museu de História Natural de Londres, admitiu que as amostras modernas de DNA podem não representar integralmente o passado. Ele explicou: “Sou cauteloso em relação ao uso de distribuições genéticas modernas para deduzir, de forma precisa, onde as populações ancestrais viviam há 200 mil anos – ainda mais em um continente tão vasto e complexo como a África”.

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Stringer também conta que Hayes e sua equipe dependeram demais do DNA mitocondrial – e da linhagem L0 – como principal fator na investigação. Ele advertiu: “Assim como tantos outros estudos que se concentram em um pequena parte do genoma, ou de uma região, ou de ferramentas de pedra ou de um fóssil importantíssimo, enfim, não é possível capturar toda a complexidade de nossas origens, visto que há outros dados [a serem] considerados”.

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Outras pesquisas também traçaram os ancestrais da humanidade até diferentes partes do continente africano. Inclusive, Stringer destacou um estudo que teve como foco os cromossomos Y, o qual apenas os homens herdam. Essa investigação sugeriu que a migração começou a partir da África Ocidental – bem distante do Botsuana ao sul e sem acesso ao mar.

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Outro estudo também descobriu que aqueles que deixaram a África e foram para outras terras carregavam genomas que remontavam à África Oriental. Stringer concluiu: “Estes e muitos outros dados sugerem que somos uma mistura de ancestrais de distintas regiões da África com a adição de cruzamentos de outros grupos humanos fora do continente”.

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Por fim, Stringer denominou as descobertas de Hayes como um “exagero”. Ele comentou à BBC News: “Você não pode usar as distribuições mitocondriais modernas de modo isolado para reconstruir um único local como berço da humanidade. Acredito que é um exagero porque estão analisando apenas uma pequena parte do genoma. Devido a isso, não é possível obter toda a história de nossas origens”.

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Alguns cientistas também acreditam que a humanidade veio de mais de um lugar. A arqueóloga da Universidade da Cidade do Cabo, Rebecca Ackermann, disse ao The Guardian que nossas origens podem estar na África – e além dela. A arqueóloga observou: “Tirar conclusões radicais sobre os lugares de origem, a partir de análises de uma pequena parte do genoma moderno, é profundamente problemático e ultrapassado”.

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De toda forma, o estudo de Hayes identificou uma potencial origem para a humanidade. Porém, mesmo com a ciência moderna e os testes de DNA, ainda é uma questão impossível de ser definitivamente esclarecida. Por enquanto, podemos pensar na vida como ela pode ter sido há 200 mil anos – com os primeiros humanos encontrando seu caminho em um pântano do Botsuana.

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